quarta-feira, 25 de julho de 2007

PRIMEIRA BAILARINA


continuação: . a dor de Teresa...
e...antes de começar a sua narrativa, Teresa pediu licença com os seus delicados modos e dirigiu-se a uma divisão situada no fundo do corredor.
Calculei tratar-se do seu quarto.
Apareceu passados poucos minutos trazendo bem apertadinha contra o seu peito uma caixa de tamanho mediano.
A caixa forrada da mais fina seda azul e rosa estava atada com um lindo laço feito com uma fita nos mesmos tons e já ligeiramente envelhecida.
Com o seu ar sereno e tentando aparentar uma calma, que na realidade não sentia, sentou-se recostando-se no sofá.
Os seus belos olhos repentinamente mudaram para uma expressão de infinita dôr, solidão e aflição.
A sua respiração tornou-se ofegante e lentamente cerrou os olhos para de seguida os abrir e fixar no esboço de Serge.
E, sem o desfitar, uma lágrima rolou.
A minha vontade foi aproximar-me e dar-lhe o mais carinhoso abraço, mas respeitei o seu silêncio e a sensação que tive de um diálogo mental entre ela e Serge...
... e dúvidas não tinha... pois sentiu-se de repente naquela bela sala algo que não pertencia ali... e apesar do ligeiro arrepio atrevi-me a olhar Serge e a sensação que me sorriu foi de tal maneira forte que o arrepio aumentou dando depois lugar à maior sensação de Paz interior... e no meio desta comunhão de sentimentos, tipo flash vi, sim... vi... o sorriso do meu amado e que lado a lado com Serge nos olhavam protegendo com esse olhar...
mas foi mesmo um breve flash... medo?... sonho?... sugestão?...realidade?... ainda hoje o não sei... só recordo a verdade do momento...
Já calma aguardei serenamente que Teresa falasse...
A sua voz era arrastada e de um timbre melodioso......
- creio que não haja exercício mais difícil nesta vida do que conviver aceitando as diferenças e administrar os conflitos...... sem a convivência tornamos-nos como que sem propósito.
Tudo o que fazemos tem um objetivo: sermos reconhecidos e amados.É também na convivência que reside o nosso maior desafio, o mais intrigante aprendizado, a que nos submetemos do primeiro ao último suspiro......é quando todos os nossos sentimentos - um a um – vão aflorando......e... após o choque frontal entre mim e Serge, algo explodiu e comecei a reparar que Serge me olhava de maneira diferente... me tocava na cintura muito docemente quando me corrigia num passo...... até que um dia aproveitando um exercício que fazíamos juntos e no qual ele se encontrava atràs de mim segurando com as duas mãos a minha cintura para me elevar, segredou ao meu ouvido:
- és linda Teresa......e tocas piano como os deuses...
sem desviar a minha cabeça e continuando a dançar com Serge respondi com toda a minha verdade:...
-quando toco penso em ti... só isso... e vejo-te a dançar...e aproximando mais a sua cabeça da minha disse ao mesmo tempo que os seus lábios afloraram o lóbulo da minha orelha:
-amo-te Teresa...e o bailado surgiu belo, suave... jamais desde que iniciara o meu curso me conseguira elevar daquela maneira... e sorrindo, saltando de e para os seus braços dançámos, dançámos e só parámos com o som das palmas quer dos colegas quer dos professores e... minha professora de piano que se encontrava também chegou perto de mim e... dando-me um beijo segredou:
- era esse o jovem que te deixou as margaridas e assistiu à tua aula...
Como ele te ama, querida Teresa...
E no meio de danças, ensaios, actuações unimos as nossas vidas, pois o amor que fazíamos quando dançávamos era tanto que já não dava para aguentar mais o nosso desejo de nos termos um ao outro...e tivemos... loucamente, suavemente furiosamente as nossas bocas procuraram-se, e o beijo surgiu de tal maneira que os nossos corpos rolaram pelo chão perdendo a noção do que se ia desenrolando.
E o amor aconteceu pleno de sensações, no meio da imensa excitação e desejo que sentíamos...... e assim foi sendo sempre... durante os espectáculos os nossos bailados eram um acto de amor o que punha sempre a plateia aplaudindo de pé......
e assim... surgiu Maria...linda... era a cara do Pai... meiga, doce e que já se começara a iniciar dando os primeiros passinhos acompanhada pelo cuidadoso Serge....
mas porque Maria precisa de mim a tempo inteiro decidimos que me afastaria dando o último espectáculo no teatro que diariamente eu fixava na esplanada da sala de chá onde me dirijo....Iria terminar com o bailado "A morte do Cisne"... Serge me acompanharia na minha despedida...
Nunca como nesse dia tivera tanto cuidado a preparar-me no camarim.
Foi anunciado publicamente o meu afastamento e a minha presença foi exigida pelo público que me chama de pé.
Dirigi-me à boca de cena e numa graciosa vénia agradeci. A meu lado surge Serge com um lindo ramo de rosas... e... destacando uma depositou um suave beijo e entregou-ma... e depois de a beijar segurei-a docemente de encontro ao meu coração...um espinho feriu-me fazendo com que estremecesse sentindo um ligeiro arrepio pelo corpo todo...
Começou o espectáculo....quando eu entrava só ou com o corpo de bailado Serge espreitava segurando ternamente pela mão a doce Maria que extasiada via a sua Mama dançar...
...final do bailado... o cisne inicia os lentos movimentos de agonia anunciando a sua breve morte...e... em todo o teatro ecoa um enorme estrondo... não parando a minha agonia esperava a entrada do meu príncepe...e dançando o esperei e dançando sem ele morri em cena...
palmas... ovações...
eu... muito lentamente fui-me deslocando para tràs permitindo que o corpo de baile me tapasse... depois louca corri e......
Serge e Maria jaziam no chão numa amálgama de fios e do enorme cenário que inexplicavelmente se houvera solto...
parei... maria abraçada a Serge sorria já sem vida... Serge... o meu amor sem vida protegia o corpinho de Maria com o seu...... os meus amores... os meus dois amores tinham partido abraçados... e eu dançava......
um enorme silêncio pesou na sala e... lentamente Teresa abrindo a caixa retirou de dentro o fato de Serge onde se via uma enorme mancha de sangue, as sapatilhas e...o fatinho com que a pequena Maria andava sempre no teatro... o seu pequenino e primeito toutout clássico...e... pela primeira vez em sua vida, naquele momento, Maria sentiu toda a impotência do mundo.
E... docemente... levantando-se tirou do colo de Maria os fatos e sapatilhas... dobrou-os com infinito cuidado guardando-os na caixa que atou com imenso amor...... o silêncio continuava e Maria olhando Teresa viu que ela sorria para Serge...... finalmente baixou-se para depositar na testa de Teresa um doce beijo...
mas... Teresa não o retribuiu...Sorrindo como a sua Maria e o seu Serge Teresa tinha partido ao seu encontro...
Tentando segurar as lágrimas Maria dirigiu-se à mesa e retirando a rosa do livro, colocou-a na linda mão já sem vida de Teresa...
Teresa finalmente repousava da sua dor......e para sempre junto de quem mais tinha amado.
Por influência de Maria Alexandra no dia imediato ao funeral de Teresa o Teatro foi mandado deitar abaixo...
Era o mínimo que Maria Alexandra poderia fazer por Teresa.
E... diariamente Maria Alexandra se sentava na mesma cadeira, da mesma mesa, da mesma esplanada olhando um novo teatro que se levantava esplendoroso - O TEATRO "MARIA TERESA SERGE". onde se via unicamente junto ao nome uma linda rosa seca...
FIM
luisa moreira

PRIMEIRA BAILARINA


Continuação : partilhas mútuas
E Teresa continua a sua narração.
Maria expectante escuta-a com todos os seus sentidos bem apurados e permitindo que uma enorme comoção tomasse conta dela pois as nuances expressivas no rosto de Teresa eram um espectáculo quase tão belo como terão sido aqueles em que deslizava nos palcos dançando......
- pode imaginar querida Maria o que senti ao contemplar o ramo de margaridas?quem seria... Serge? oh! sonho meu! não impossível...sou uma garota... ele só repara em mim quando danço e para me corrigir qualquer passo menos perfeito... puro olhar profissional...
-quem seria então o rapazinho que a escutou na sua aula de piano? pergunta Maria...
-minha querida não faço a mínima ideia...
-fui correndo até à porta da aula de ballet e quase bati de frente com Serge que acabara de entrar... deixando cair o ramo de margaridas...
com delicadeza Serge baixou-se apanhando o meu ramo e sorrindo entregou-mo dando-me passagem...
as minhas pernas tremiam, pois por breves minutos sentira-o bem perto de mim.
O meu corpo começara já a sentir-se um corpo de mulher e não de menininha... entende-me, Maria?
-claro que sim... e... estou a recordar algo de belo que aconteceu comigo...
-Teresa ? - descupe Maria ponho-me para aqui a falar do meu passado e esqueço que notei em si também uma enorme necessidade de partilhar algo que a oprime... estou enganada?
- não, querida Teresa, não está...
e Maria unindo as suas mãos num gesto nervoso mostrando uma expressão de imensa tristeza e solidão permitiu que uma lagrimita rolasse pelo lindo rosto e sem se importar disse na mais triste e solitária voz:
-estou cansada Teresa, cansada de tanto dar e nada receber... cansada de ser dócil, mas determinada, meiga, amiga de ajudar, apaixonada pondo paixão em tudo o que faço, e em nada ter retribuição... pergunto-me se valerá a pena ser assim...pois ainda se divertem, procuram ferir usando as coisas mais idiotas e de grande mas negativa criatividade... mas se pensam que sou pateta - isso não o sou.
Entendo muito bem... só que se por vezes deixo passar outras não e depois firo e magoo em minha defesa.
-isso é natural querida Maria, pois infelizmente estamos num mundo cão e uma pessoa com a sua classe natural, o seu carisma, as suas potencialidades aliado à sua beleza interior, exterior e inteligência é sempre um alvo para os fracassados, frustados e de índole malévola...não se importe, pois, de ser como é, pois é linda...
-quem a feriu, minha querida? Fernando? pergunta Teresa?
-oh... esse fere-me sempre que abre a boca pos isso estou determinada a acabar com esta relação que já nada me diz... mas... não... Fernando nada tem a ver ...
-posso contar-lhe Teresa... sem que se sinta incomodada ?...
- minha querida, somos ambas mulheres, que amamos a vida e o amor... fale tranquila pois muito amei e se algo compreendo bem são os meandros do coração...respirando fundo Maria, pegando numa chávena bebeu um ligeiro golo de chá e fixando os ainda belíssimos olhos de teresa recostou-se no sofá deixando repousar a sua cabeça um pouco dorida...e ainda antes de iniciar sorriu e a sua expressão irradiava tamanha luz que senti o ambiente iluminado...
Como deve ter amado e sofrido esta menininha... pensou Teresa que, recostando o seu corpo no sofá se preparou para escutar atenta o que Maria ia começar a narrar...
continua...

PRIMEIRA BAILARINA


continuação:- confidências
-sabe Maria? Quando iniciei os meus estudos de ballet, no conservatório conheci Serge.
Um belo jovem, filho de franceses radicados agora em Portugal, de porte elegante e com uma postura que se percebia ser um colega de curso, embora já mais avançado….
e…eu…uma menininha ainda…
mas os meus olhos já não deixaram de seguir Serge sempre que ele por mim passava nos corredores do conservatório e em mim mal reparava…
mas… certo dia… por doença da professora, e para minha grande alegria foi Serge que veio dar a aula…
com a máxima atenção executei todos os exercícios que ele ia mandando que fizéssemos.
A sua elegância, delicadeza nas indicações e correcções ainda mais forte me fazia bater o coração… a sua voz ... forte, doce e musical...… e enlevada não conseguia tirar os olhos daquela figura esbelta que rodopiava e saltitava na nossa frente…na altura tinha eu 16 anos e Serge tinha mais 10 do que eu.
Como repararia em mim ?
Chegou finalmente o dia do meu aniversário.
Era um dia normal no conservatório.
Entrei sem reparar quem se encontrava no átrio pois já ia ligeiramente atrasada para a minha aula de piano e madamme não admitia atrasos.
Sentia-me bonita.
Sentia-me feliz e entrando na sala dirigi-me ao piano.
Madamme já me aguardava e estranhamente nesse dia estava sorridente. Iniciando a minha aula não reparei que num canto da sala se encontrava alguém muito atento e que silenciosamente me observava.
E… pensando em Serge toquei como nunca houvera tocado.
E os sons do estudo de Chopin que madamme me pedira que tocasse, ecoaram melodiosos por toda a sala…
A carinhosa mão de madamme pousou suavemente no meu ombro encentivando-me a que continuasse e ao levantar os olhos do teclado reparei que em cima da cauda do piano se encontrava um lindo ramo de margaridas.
A sua simplicidade transformava-o no mais fino bouquet. Sorri para madamme pensando serem dela e… as minhas mãos continuaram deslizando no teclado enquanto o meu pensamento estava centrado na figura de Serge dançando… mal podia eu imaginar que cheio de enlevo ele… no canto da sala… me escutava …
Acabada a aula e quando iniciava a corrida para a sala de ballet, madamme chamou e dando-me um beijo entregou-me as flores:
- são para ti, vieram trazer…
- para mim?…- -sim querida, um jovem deixou ficar tendo-me pedido que o deixasse assistir à tua aula…
- …?- …
- como?… quem?…
- …- não conheço, mas meu aluno não é...
continua...

PRIMEIRA BAILARINA


continuação - confiança
Maria continuava, tentando estar calma, à espera que Teresa iniciasse a narrativa... será que falaria?...
Como que para a encorajar pousou nas mãos de Teresa que ainda seguravam as suas, um respeitador e suave beijo.
No rosto de Teresa esboçou-se um ligeiro sorriso... e... confiante... falou...
-Maria desde bem menina o meu grande sonho foi ser bailarina. Pela casa de meus Pais em vez de correr eu saltitava pequenos passos, sem o saber, claro, de dança...minha Mãe, de rigorosa educação mas de refinado gosto, cedo me arranjou uma professora de piano.
Eu gostava... mas... não era o que eu queria efectivamente... obediente que era fui aprendendo e fazendo os meus exames e quando me apercebi já dava os meus primeiros concertos....
mas minha mãe cedo percebeu que o meu rosto estava triste... algo me faltava... e não fôra minha mestre madamme Ivette... jamais teria dado os primeiros passos de dança...imagina querida Maria o que senti?
os ensinamentos, o trabalho na barra, a colocação das mãos- e soltando a minha mão estendeu a sua demonstrando a elegância dos suas longas e bonitas mãos, a delicadeza da posição dos seus dedos lindos e esguios...
apetecia-me falar... mas não queria interromper a sua narração pois a sua voz de comovida percebia-se que tão cedo não pararia ...
e na sua voz doce e quente Teresa continuoue falou dos seus primeiros passos, das suas primeiras sapatilhas... do seu primeiro espectáculo... do seu primeiro toutout clássico...
e levantando-se saiu da sala para voltar mostrando já bem velhinho o pequeno fato de bailarina...
Maria estava comovida, pois... como era possível guardar-se durante tantos anos sem que se rompesse uma peça tão frágil?...
percebendo a comoção de Maria, Teresa perguntou se, tinha sentido o chamamento da música e do ballet, porque não tinha seguido?
sorrindo tristemente, Maria disse que seus pais nunca lhe poderiam ter dado essa educação pois não eram pessoas de posses... tiveram sim que se cingir a um curso que, pudesse dar garantias de sobrevivência a sua filha.
Assim surgiu a Engenharia.
Maria era hoje uma respeitada e requisitada engenheira.
Teresa acariciou docemente o rostinho triste de Maria lembrando que se sua filha estivesse ainda com ela teria a sua idade.
Com verdadeira ternura e sentindo muita saudade de sua mãe abraçou fortemente Teresa.
-mais um pouco de chá? perguntou Teresa
-sim, por favor...
interromperam o tema para falar das flores, do seu grande amor às orquídeas, do seu perfume preferido... dos amores e desamores de cada uma...
com curiosidade Teresa perguntou: disse que estava noiva, certo? é para breve o casamento?
Maria fixou o seu olhar no esboço que se encontrava pendurado na parede e sem o desfitar e com o seu ar determinado respondeu baixinho
- nem sei se haverá casamento, pois o meu noivado foi uma ilusão.
Fernando mostrara-se um ser egoista, prepotente, ciumento (Maria era efectivamente uma linda mulher), não permitindo que ela tivesse o seu espaço...e Maria era demasiado livre para ser colocada num cerco ou numa redoma...
baixando a cabeça Teresa disse num ligeiro sussurro... eu amei tanto e tanto fui amada...
levantando em seguida a cabeça fixou o seu olhar no esboço onde se via um belíssimo rosto de homem...
continua...

PRIMEIRA BAILARINA

continuação: o levantar do véu...

Maria Alexandra manteve-se ainda por breves minutos com os seus olhos fechados entregando-se aos acordes agora mais altos e mais rápidos do Bolero de Ravel...

Um ligeiro ruído que lhe pareceu algo a rodar no corredor fê-la abrir os olhos e empurrando um carrinho de chá Teresa aproximava-se da sala mantendo aquele sorriso misterioso...

solícita Maria Alexandra ofereceu ajuda e agora sentadas frente a frente, tendo somente entre elas o carro de chá,não ricamente recheado, mas deliciosamente requintado, nas chávenas sec XVII, nos scones acabados de fazer e no delicioso chá de framboesa e mirtilhos... e sentando-se...Teresa finalmente sorriu abertamente...

Vi com agrado que apreciou Ravel disse Teresa.

Sim, sim, adoro Ravel e então este Bolero todo ele cheio de nuances fabulosas prende-me desde o seu início. E digo-lhe Teresa a música e o bailado para mim são uma paixão não concretizada.

Permite-me, sem tentar entrar nos seus silêncios, que lhe faça uma pergunta?

-claro Maria Alexandra... força... disse sorrindo...
- aquelas sapatilhas de pontas são suas?
-sim...são minhas... com elas...

pousou a chávena pois a sua mão tremia e delicadamente limpou uma pequena lágrima que se começara a formar nos seus belos olhos......
pedindo desculpa Maria Alexandra calou-se tentando mudar de assunto sem que nenhum tema diferente despontasse no seu cérebro...... deliciosos scones... disse Maria Alexandra e este chá... é a poção dos Deuses...

dando uma gargalhada Teresa aliviou a enorme atrapalhação de Maria Alexandra...

-não fique aflita, querida Maria, posso tratá-la assim?
-claro, respondeu Alexandra...

dirigindo-se à mesa redonda Teresa trouxe com ela a moldura onde se encontrava a foto de uma criança.
Sentando-se novamente serviu mais um pouco de chá e fazendo com que Maria olhasse o esboço masculino na parede Teresa disse com a voz mais doce, terna e de uma melancolia sem limites:

Aquele, Maria... era o meu adorado marido e companheiro... esta criança que sorri era Maria, minha filha... ambos retirados da minha vida num brutal acidente...
-não faça essa cara tristinha, querida Maria, sei que estão bem, partiram juntos e abraçados...

o ar começara a faltar-me pois de tentar reter o choro não conseguia quase respirar...

docemente Teresa acalmou-me e, sentando-se a meu lado pegou na minha mão...
e de tal maneira suaves e belas eram que eu mesmo sem querer deixei sair: -lindas - mãos de bailarina!...

percebi que Teresa necessitava abrir o seu baú de recordações... bastou para isso que surgisse uma outra Maria...

e... tentando manter-me tranquila, aguardei o desenrolar do que seguramente iria ser a mais bela história de amor, felicidade e dôr que alguma vez meus ouvidos tiveram o prazer de escutar...

continua

PRIMEIRA BAILARINA

continuação


Teresa era efectivamente uma excelente companhia e os temas escolhidos na conversa que ia rolando sem nos darmos conta eram demais interessantes.

A convite de Teresa que não pude recusar, no final da minha tarde de trabalho passei por sua casa.

Não, sem antes me ter dirigido a uma florista e comprado as mais belas flores silvestres que consegui encontrar calculando que as apreciaria.

Após 3 lances de escadas subidos calmamente toquei na antiga campaínha em latão prodigiosamente brilhante. Sorridente Teresa abriu a porta.

Com um ligeiro gesto indicou-me a sala e segurando no ramo que eu levara convidou-me a sentar.

Apreciei o que se encontrava à minha volta...
Os sofás um pouco gastos mostravam ainda a sua beleza e o requintado gosto de quem os escolhera...
Uma mesa redonda num dos cantos da sala, tapada com uma lindíssima camilha dava ao ambiente um toque de Belle Époque. Sobre esta, artisticamente colocadas as caixas, as molduras todas contendo fotos de uma bailarina, um livro com uma rosa já seca em cima. A foto de uma criança e um lindo vaso com umas deliciosas orquídeas. Todo o conjunto me mostrava que aquela casa era habitada por alguém de uma enorme sensibilidade.
Continuando a percorrer a sala com os olhos reparo que num outro canto se encontrava um piano aberto com uma pauta musical colocada no seu suporte.

Nas paredes uma profusão de quadros onde se destacava um esboço de uma figura masculina, pinturas a óleo, bailarinas dançando.
Por baixo uma chaise longue coberta de almofadas convidava a preguiçar. Junto às almofadas as sapatilhas de pontas em tom rosa debotado ... pelo uso... mas que carinhosamente repousavam...

Como me senti transportada... o aroma da casa adocicado sem ser enjoativo, a belíssima colecção de flores, toda a decoração me fez fechar os olhos tentando imaginar o que teria sido a vida de Teresa...

Num tom baixo ouvia-se os sons de Ravel no seu incomparável Bolero...recostando-me no sofá escutei mantendo os meus olhos fechados...




continua...

















PRIMEIRA BAILARINA - CONTO

CONTO - 1º. Parte-


Recordações

Na calma e tranquila esplanada sentada a uma mesa e indiferente a tudo o que a rodeava, uma mulher já não muito nova, mas de traços muito doces, notando-se ainda a sua beleza beberricava lentamente o seu chá.
As suas mãos eram suavemente belas e elegantes...
A sua cabeça de porte altivo, mas de uma simplicidade encantadora mantinha-se bem levantada...
Os seus olhos transpareciam uma expressão da mais verdadeira ternura.
O seu olhar estava fixo no mesmo ponto.
Duas mesas afastadas eu observava a elegância, o porte, e a infinita melancolia que envolvia o espaço ocupado por Teresa.
Teresa era o seu nome e pelo tratamento do empregado percebi ser cliente assídua e que aquele lugar na esplanada era quase propriredade privada.
E de tal maneira o seu olhar era intenso que curiosa segui o seu trajecto .
Do lado de lá da avenida situava-se o Teatro(agora abandonado) que outrora tinha sido a mais bela sala de espectáculos desta cidade.
De distraída Teresa não percebera que do seu colo tinha escorregado a sua fina écharpe de seda.Levantando-me apanhei-a e entreguei-lha.
Sorriu, agradeceu e perguntou se me queria sentar a seu lado.
Fiz sinal ao empregado para que colocasse na mesa de Teresa o meu refresco.
Permita-me que me apresente, disse eu: Sou Maria Alexandra, engenheira e trabalho nesta empresa aqui em frente disse apontando com a cabeça o prédio onde se situava o meu gabinete.
Teresa, muito prazer, sem ocupação, vivendo de recordações... a minha casa fica já aqui um pouco abaixo...
Suavemente me perguntou: casada?Sorrindo respondi: ainda não, estou noiva...
Que bom... disse Teresa...
e este pequeno diálogo deu lugar a uma conversa interessante em que me falou de sua casa, das suas flores que muito amava (sua única companhia) dos seus chás tomadas nesta esplanada...
falei um pouco de mim, do que gostava, onde morava e o que fazia...
sorriu e verifiquei que o seu sorriso era lindo e suave como ela mas de uma tristeza imensa...
continua...
:)

POESIA


Por vezes surge poesia...

pensa-se em algo e a vontade de deitar para fora o que se vai formando na mente absorve-nos e ao juntar, unir, sai... poesia...


OS TEUS OLHOS TRISTES SÃO

Tanta tristeza se vê
nesses teus olhos distantes
é como se a cada momento
te viesse ao pensamento
teu amor e teu tormento


Tudo aquilo que pensaste
e com ânsia desejaste
foi somente um sonho belo
e no qual acreditaste


Mas assim te magoou
pois de um sonho se tratou
e triste e só tu ficaste
e nesses olhos tão lindos
só a solidão ficou!
(grav e registados)
Lu


AMOR



E porque amo... o amor...

e o sinto presente

não me canso...e...

no meio do desamor,

falar de amor... um encanto...



infinito amor...sentimentos puros...

que desejo ter que preciso tanto...

como a água de beber...

surge de repente

brinca com a gente

como a branca espuma

brinca com o mar...



espuma na qual me deito...

onde não sinto despeito

e sim a ternura chegar...

são reflexos do amor

aquele que temos para dar...



amor... quando tocas...

pões magia pões ternura...

dás alegria...transformas o dia-a-dia

na mais linda fantasia...

e de tanto te amar...amor...

falo de ti sem cansar

falo de ti...com fervor...Amor...





Luisa

A PALMEIRA E O COCO


Hoje em meus sonhos...

naveguei... por um oásis de amor...encontrando em seu esplendor...

uma palmeira encantada...


na sua grandeza ela é a mais bela de entre todas......e guarda nas suas raízes...a mais bela Lua prateada...


na sua bela nudez e no ponto mais alto vê-se um pequeno coco... um belo fruto tenro e frágil.


Todos os dias ao nascer da aurora o vento a faz abanar pressagiando com os seus murmúrios que o coco há-de cair...


não se compreende como ela não o agarra bem e lhe permite a queda sabendo não só que lhe provocará dor, bem como, com a queda, o pequeno e frágil côco se ferirá...

ela encontra-se com uma enorme contradição...o coco aceita... sem entender... o motivo da queda...pois... a queda... vai provocar não só a sua solidão como com a batida que será dura todo o delicioso suco deste belo fruto verterá...e...na penumbra... a palmeira sua nostalgia chorará...


o coco... em outras mãos acabará...


cair e levantar...cair e ser levantado...cair... mas sem destino marcado!


Esta noite em meus sonhos...esta palmeira vi...


esta noite sonhando...senti...

quantos pequenos e frágeis cocos que se gostam de fazer já fortes...receiam apavorados... a queda... que seguramente darão e muito os irá fazer sofrer e rasgar.


Hoje...


sonhei...


Luisa

AROMA DE PINHO


Essência de verde, de aroma a pinho...

do ar da montanha...

de uma cascata de palavras...

do brincar com elas, sabendo onde colocá-las...

de passear e sentir...

da tua amizade...do som dos teus sonhos...

dos choros evaporados... os sorrisos cúmplices e a tristeza das árvores cortadas... queimadas...e... algures na floresta caladas...

...repousam as palavras não ditas...

as que não saem e muitas vezes queríamos dizer...

as essências das flores bailam ao som do vento, cantam e ao escutar o teu sorriso,

despertam e dão-te força a retomar a marcha...

por mais que essa árvore se perca na espessura da floresta...

que nos desorientemos sem bússula... essa árvore está lá ...

por vezes se chama sol... podes também chamar-lhe mar... areia ou vento... ou núvem... temporal... deserto... ou

...em cada um dos seus ramos se encontra a árvora da vida, e caminhando vamos encontrar as suas raízes tentando dar sentido aos nossos altos e baixos... Viver


Luisa

UM FINAL DE TARDE QUENTE



Depois de um dia demuito calor e sempre bem disposta, fui até à beira mar.

Sentei numa esplanada. Pedi um sumo bem geladinho. O sol estava radioso, o mar prateado convidava ao mergulho.


Pensei: que belo sítio para analisar situações vividas durante o dia.
Para pensar nos teatrinhos das pessoas que nos rodeiam, nas mentes tortuosas e maquiavélicas, na necessidade de certas pessoas em criticar, falar mal, mentir.
Porque teima o ser humano em ver um cisquinho num olho alheio e não consegue ver o pedregulho que tem nos seus.
O sol é bonito, o mar tranquiliza
Tudo se esquece!


De Meus pensamentos Luisa Moreira
..(gravados e registados)

Um Minuto de Felicidade



Um minuto de Felicidade


Meu Deus! Um minuto inteiro de felicidade!
Não basta isso para preencher a vida de um homem?
Dostoievsky escreve esta maravilhosa frase na sua obra “Noites Brancas” e eu atrevo-me a pegar nela e desenvolver o tema.


Foi-me lançado este repto e eu gosto de desafios. Não tentar competir com este imenso e grande Senhor da escrita, sim tomar real conhecimento das minhas capacidades.


Um minuto de felicidade! Como seria bom sentir que tive esse minuto. Como me sentiria se o tivesse vivido!
Um minuto, 60 “ de inteira felicidade seria algo bom para recordar.


Um minuto de felicidade! Como esse ínfimo tempo taparia tantas lacunas! Como esse minuto aconchegava, aquecia!


Um minuto!? Afirmarão e ou perguntarão os mais incrédulos.
Um minuto?


Num minuto pode-se nascer!
Num minuto crescemos um pouco!
Num minuto acariciamos!
Num minuto aplaudimos!
Num minuto castigamos!
Num minuto nos podemos suicidar e num minuto morremos!
Num minuto amamos com a mesma intensidade que poderemos odiar.
Num minuto corremos para o avião e, no mesmo minuto o perdemos!
Num minuto pensamos que encontrámos algo e no minuto seguinte sentimos que o perdemos!
Num minuto dizemos olá!
Num minuto nos despedimos!
Num minuto rimos, e noutro choramos!
Como um minuto é importante!
Num minuto de felicidade passamos a sentir tristeza!
Num minuto estendemos mão amiga!


Como seria maravilhoso ter um minuto para recordar e não horas de infinita tristeza pra tentar esquecer!
E como o tempo de duração de um inuto são 60 segundos, nesses segundos, nesse minutos poderemos dizer: QUERO-TE!


E neste minuto fizemos o que queríamos. Dissemos o que sentíamos!
Nesse maravilhoso minuto, com as minhas palavras, dei carinho, dei-o e recebi!


Um minuto de Felicidade!


De Meus pensamentos Luisa Moreira
..(gravados e registados)

Bem Vindos


Escrever é uma das paixões da minha vida.

Juntar, unir, jogar com as palavras, rolar e enrolar-me nelas vão fazendo parte do meu dia-a-dia e começo a dar-me conta que não consigo passar sem permitir que os meus dedos escorreguem pelo teclado.

Algo que me faz bem, que me faz muitas vezes esquecer coisas que se recusam a partir da minha mente.

Aqui virei...
pois...

sou...

estou...

são...
coisas minhas...

e para vos receber ninguém melhor que:

http://www.youtube.com/watch?v=Tu9HPz__3ys