quarta-feira, 25 de julho de 2007

PRIMEIRA BAILARINA


continuação: . a dor de Teresa...
e...antes de começar a sua narrativa, Teresa pediu licença com os seus delicados modos e dirigiu-se a uma divisão situada no fundo do corredor.
Calculei tratar-se do seu quarto.
Apareceu passados poucos minutos trazendo bem apertadinha contra o seu peito uma caixa de tamanho mediano.
A caixa forrada da mais fina seda azul e rosa estava atada com um lindo laço feito com uma fita nos mesmos tons e já ligeiramente envelhecida.
Com o seu ar sereno e tentando aparentar uma calma, que na realidade não sentia, sentou-se recostando-se no sofá.
Os seus belos olhos repentinamente mudaram para uma expressão de infinita dôr, solidão e aflição.
A sua respiração tornou-se ofegante e lentamente cerrou os olhos para de seguida os abrir e fixar no esboço de Serge.
E, sem o desfitar, uma lágrima rolou.
A minha vontade foi aproximar-me e dar-lhe o mais carinhoso abraço, mas respeitei o seu silêncio e a sensação que tive de um diálogo mental entre ela e Serge...
... e dúvidas não tinha... pois sentiu-se de repente naquela bela sala algo que não pertencia ali... e apesar do ligeiro arrepio atrevi-me a olhar Serge e a sensação que me sorriu foi de tal maneira forte que o arrepio aumentou dando depois lugar à maior sensação de Paz interior... e no meio desta comunhão de sentimentos, tipo flash vi, sim... vi... o sorriso do meu amado e que lado a lado com Serge nos olhavam protegendo com esse olhar...
mas foi mesmo um breve flash... medo?... sonho?... sugestão?...realidade?... ainda hoje o não sei... só recordo a verdade do momento...
Já calma aguardei serenamente que Teresa falasse...
A sua voz era arrastada e de um timbre melodioso......
- creio que não haja exercício mais difícil nesta vida do que conviver aceitando as diferenças e administrar os conflitos...... sem a convivência tornamos-nos como que sem propósito.
Tudo o que fazemos tem um objetivo: sermos reconhecidos e amados.É também na convivência que reside o nosso maior desafio, o mais intrigante aprendizado, a que nos submetemos do primeiro ao último suspiro......é quando todos os nossos sentimentos - um a um – vão aflorando......e... após o choque frontal entre mim e Serge, algo explodiu e comecei a reparar que Serge me olhava de maneira diferente... me tocava na cintura muito docemente quando me corrigia num passo...... até que um dia aproveitando um exercício que fazíamos juntos e no qual ele se encontrava atràs de mim segurando com as duas mãos a minha cintura para me elevar, segredou ao meu ouvido:
- és linda Teresa......e tocas piano como os deuses...
sem desviar a minha cabeça e continuando a dançar com Serge respondi com toda a minha verdade:...
-quando toco penso em ti... só isso... e vejo-te a dançar...e aproximando mais a sua cabeça da minha disse ao mesmo tempo que os seus lábios afloraram o lóbulo da minha orelha:
-amo-te Teresa...e o bailado surgiu belo, suave... jamais desde que iniciara o meu curso me conseguira elevar daquela maneira... e sorrindo, saltando de e para os seus braços dançámos, dançámos e só parámos com o som das palmas quer dos colegas quer dos professores e... minha professora de piano que se encontrava também chegou perto de mim e... dando-me um beijo segredou:
- era esse o jovem que te deixou as margaridas e assistiu à tua aula...
Como ele te ama, querida Teresa...
E no meio de danças, ensaios, actuações unimos as nossas vidas, pois o amor que fazíamos quando dançávamos era tanto que já não dava para aguentar mais o nosso desejo de nos termos um ao outro...e tivemos... loucamente, suavemente furiosamente as nossas bocas procuraram-se, e o beijo surgiu de tal maneira que os nossos corpos rolaram pelo chão perdendo a noção do que se ia desenrolando.
E o amor aconteceu pleno de sensações, no meio da imensa excitação e desejo que sentíamos...... e assim foi sendo sempre... durante os espectáculos os nossos bailados eram um acto de amor o que punha sempre a plateia aplaudindo de pé......
e assim... surgiu Maria...linda... era a cara do Pai... meiga, doce e que já se começara a iniciar dando os primeiros passinhos acompanhada pelo cuidadoso Serge....
mas porque Maria precisa de mim a tempo inteiro decidimos que me afastaria dando o último espectáculo no teatro que diariamente eu fixava na esplanada da sala de chá onde me dirijo....Iria terminar com o bailado "A morte do Cisne"... Serge me acompanharia na minha despedida...
Nunca como nesse dia tivera tanto cuidado a preparar-me no camarim.
Foi anunciado publicamente o meu afastamento e a minha presença foi exigida pelo público que me chama de pé.
Dirigi-me à boca de cena e numa graciosa vénia agradeci. A meu lado surge Serge com um lindo ramo de rosas... e... destacando uma depositou um suave beijo e entregou-ma... e depois de a beijar segurei-a docemente de encontro ao meu coração...um espinho feriu-me fazendo com que estremecesse sentindo um ligeiro arrepio pelo corpo todo...
Começou o espectáculo....quando eu entrava só ou com o corpo de bailado Serge espreitava segurando ternamente pela mão a doce Maria que extasiada via a sua Mama dançar...
...final do bailado... o cisne inicia os lentos movimentos de agonia anunciando a sua breve morte...e... em todo o teatro ecoa um enorme estrondo... não parando a minha agonia esperava a entrada do meu príncepe...e dançando o esperei e dançando sem ele morri em cena...
palmas... ovações...
eu... muito lentamente fui-me deslocando para tràs permitindo que o corpo de baile me tapasse... depois louca corri e......
Serge e Maria jaziam no chão numa amálgama de fios e do enorme cenário que inexplicavelmente se houvera solto...
parei... maria abraçada a Serge sorria já sem vida... Serge... o meu amor sem vida protegia o corpinho de Maria com o seu...... os meus amores... os meus dois amores tinham partido abraçados... e eu dançava......
um enorme silêncio pesou na sala e... lentamente Teresa abrindo a caixa retirou de dentro o fato de Serge onde se via uma enorme mancha de sangue, as sapatilhas e...o fatinho com que a pequena Maria andava sempre no teatro... o seu pequenino e primeito toutout clássico...e... pela primeira vez em sua vida, naquele momento, Maria sentiu toda a impotência do mundo.
E... docemente... levantando-se tirou do colo de Maria os fatos e sapatilhas... dobrou-os com infinito cuidado guardando-os na caixa que atou com imenso amor...... o silêncio continuava e Maria olhando Teresa viu que ela sorria para Serge...... finalmente baixou-se para depositar na testa de Teresa um doce beijo...
mas... Teresa não o retribuiu...Sorrindo como a sua Maria e o seu Serge Teresa tinha partido ao seu encontro...
Tentando segurar as lágrimas Maria dirigiu-se à mesa e retirando a rosa do livro, colocou-a na linda mão já sem vida de Teresa...
Teresa finalmente repousava da sua dor......e para sempre junto de quem mais tinha amado.
Por influência de Maria Alexandra no dia imediato ao funeral de Teresa o Teatro foi mandado deitar abaixo...
Era o mínimo que Maria Alexandra poderia fazer por Teresa.
E... diariamente Maria Alexandra se sentava na mesma cadeira, da mesma mesa, da mesma esplanada olhando um novo teatro que se levantava esplendoroso - O TEATRO "MARIA TERESA SERGE". onde se via unicamente junto ao nome uma linda rosa seca...
FIM
luisa moreira

Nenhum comentário: